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Por dois meses, quem trabalhou em silêncio pelo Projeto Onças do Amapá foram as câmeras espalhadas pela costa do Amapá. Enquanto a equipe estava longe, oito cameras-trap permaneceram instaladas em pontos estratégicos ao longo da costa, registrando a rotina invisível das onças-pintadas e de outros grandes vertebrados. Em agosto, uma nova expedição voltou ao campo com uma missão clara: recuperar esses equipamentos e trazer de volta as histórias que eles registraram.Da capital do Estado (Macapá) até o município do Amapá são cerca de 315 km e quase 4 horas de viagem de carro. Para chegar ao nosso destino passamos por alguns municípios como Porto Grande, Tartarugalzinho e Pracuúba. Essa porção do estado reúne florestas, campos naturais, áreas alagadas, mangues e ambientes mais abertos como savanas amazônicas.

Câmeras que seguem o rastro das onças

As oito cameras-trap recolhidas nessa expedição permaneceram funcionando por 24 horas durante 60 dias em campo. Elas foram instaladas com o apoio essencial dos assistentes de campo, que conhecem o território em detalhe: trilhas, variações do terreno, pontos de passagem de animais e locais onde o mangue encontra a floresta e os campos.

As câmeras são acionadas por sensores de movimento e calor, registrando fotos e vídeos sempre que algum animal passa diante delas. Para o estudo das onças-pintadas, esse tipo de equipamento é fundamental. Com ele, é possível:

• Detectar a presença de onças em áreas onde raramente são observadas diretamente.

• Registrar os horários de atividade, indicando se estão mais ativas ao amanhecer, ao entardecer, à noite ou durante o dia.

• Identificar indivíduos diferentes por meio do padrão de manchas no corpo, o que ajuda a estimar quantos animais usam a região.

• Observar em quais trilhas e tipos de ambiente as onças aparecem com mais frequência.

Cada foto ou vídeo de uma onça é um dado científico. Quando essas imagens são analisadas em conjunto, permitem construir um quadro mais detalhado sobre a presença e o comportamento da espécie no Amapá. A partir delas, é possível compreender, por exemplo, se as onças preferem determinados ambientes, se utilizam corredores naturais entre fragmentos de vegetação e como ocupam uma paisagem onde campos, florestas, mangue e áreas alagadas coexistem.


Para muitos dos bolsistas que participam da expedição, essa rotina de campo também é um momento de aprendizado sobre o próprio Amapá. Marcelo Silva, bolsista do projeto, resumiu a experiência da viagem: “saímos de Macapá bem cedo e, ao longo da BR-156, fomos parando em municípios como Porto Grande e Tartarugalzinho; foi uma oportunidade de conhecer melhor as rotas, observar os diferentes tipos de paisagem e entender, na prática, como se organiza um dia de trabalho em campo”. Vandressa Dandara, que também integrou a equipe, destacou a importância dos primeiros dias no município do Amapá: “chegar na cidade, conversar com os parceiros locais, planejar as idas a campo e depois seguir de carro e de barco para as entrevistas nas propriedades ao longo do rio Flexal mostrou como a pesquisa depende tanto da logística quanto do contato direto com quem vive na região”.

Entrevistas que ampliam o olhar sobre as onças

Além da retirada das câmeras, a expedição realizou entrevistas nas regiões de Pracuúba e do Amapá, com visitas às propriedades ao longo do rio Flexal. O objetivo foi reunir informações sobre avistamentos de onças, relatos de presença e percepções sobre esses e outros animais.

Moradores, trabalhadores rurais e famílias que vivem ou circulam com frequência pela região contribuem com um tipo de conhecimento que a ciência, sozinha, não alcança. Seus relatos ajudam a identificar:

• Locais onde as onças são vistas, ouvidas ou percebidas com mais frequência.

• Mudanças ao longo do tempo na presença desses felinos em determinadas áreas.

• Padrões de movimentação associados a rios, campos, florestas e áreas mais abertas.

Quando essas narrativas são cruzadas com os dados das cameras-trap, o resultado é uma visão mais ampla da distribuição das onças no Amapá. A pesquisa ganha em profundidade ao combinar registros automáticos, sistematizados, com a experiência acumulada de quem convive há anos com essa paisagem. Nossas próximas atividades incluem a instalação de mais câmeras ao longo da costa do Amapá, um lugar até então com poucas informações sistematizadas sobre onças e outros vertebrados de médio e grande porte. Acompanhem nossas novidades!