Construir confiança não é uma prática diária. Em projetos ambientais, especialmente aqueles que acontecem em territórios vivos como o Amapá, a confiança se cria no passo a passo: estar presente, ouvir, aprender a caminhar junto. É nessa base que qualquer conhecimento científico se fortalece, porque nenhum dado faz sentido isolado da realidade das pessoas que convivem com a floresta há gerações.
No Onças do Amapá, aprendemos isso desde o primeiro dia. Pesquisar grandes felinos só é possível porque existe uma rede de gente que entende o território de verdade: ribeirinhos, quilombolas, pescadores, agricultores, extrativistas, mestres da floresta. Eles são os primeiros a perceber mudanças sutis no ambiente, os primeiros a alertar, os primeiros a ensinar. Sem esse diálogo contínuo, a ciência simplesmente não acontece.
Diálogo como método: quando o território fala e a ciência escuta
No Brasil, os povos e comunidades tradicionais são oficialmente reconhecidos pelo Estado como 28 segmentos distintos, conforme a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (Decreto nº 6.040/2007), coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Esses grupos possuem modos de vida culturalmente diferenciados, organização social própria e uma relação profunda com o território, com saberes transmitidos entre gerações e práticas ligadas ao uso sustentável dos recursos naturais.
Esse reconhecimento reforça algo essencial para a conservação: não existe proteção da biodiversidade sem considerar quem vive, observa e cuida desses territórios no cotidiano. Os povos tradicionais acumulam conhecimentos sobre ciclos naturais, comportamento da fauna, mudanças na paisagem e formas de convivência com o ambiente que complementam — e muitas vezes antecedem — os dados produzidos pela ciência acadêmica.

No Onças do Amapá, o diálogo é o eixo que transforma esse entendimento em prática. Essa etapa do trabalho, acontece em parceria com o Quilombo do Cunani e com os povos e comunidades tradicionais que vivem no entorno do Parque Nacional do Cabo Orange, que conhecem o território em profundidade e acompanham de perto suas transformações. As expedições, conversas e atividades de campo partem sempre da escuta: por onde a onça circula, o que mudou nos rios, como o ambiente responde às estações. Essas trocas orientam decisões, ajustam estratégias de pesquisa e fortalecem uma ciência construída junto, que respeita o território e reconhece quem vive nele como parte central do processo.
Confiança é parceria
A confiança nasce quando deixamos claro que trabalhamos com as comunidades, e não apenas no território delas. Isso significa respeitar ritmos, compartilhar informações e garantir que cada família saiba por que estamos ali e como os resultados retornam para o próprio território.
Quando as relações se fortalecem, tudo flui: o monitoramento fica mais preciso, as conversas ficam mais abertas e as pessoas se reconhecem como parte da pesquisa, não como espectadoras. No Onças do Amapá, essa parceria é o coração do projeto — é ela que sustenta nossas ações e permite que a ciência floresça com mais sensibilidade, precisão e verdade.
No fim das contas, cada passo que damos no Onças do Amapá revela que a pesquisa só ganha profundidade quando reconhece que existem muitas formas de ler o território. É justamente essa multiplicidade de olhares que abre caminhos novos para entender a presença da onça e tudo o que se move ao redor dela. E, se você quiser seguir por essa trilha, o nosso texto: “Conhecimento tradicional e conservação: o que as comunidades nos ensinam sobre a onça?” aprofunda ainda mais como esses saberes ampliam o alcance da ciência.
